Esperar. Ver a vida passar, buscando nela sempre alguma forma de felicidade. Se acomodar com o que se é oferecido. Aguardar por qualquer atitude de um alguém que ainda não se sabe quem. Esperar.
E viver. Viver à sombra de uma promessa, que um dia, talvez, quem sabe, possa vir a ser cumprida. Acordar a cada nova manhã sem ter a certeza de se aquele dia será de fato um novo dia. E, ainda assim, viver.
Prometer. Mundos e fundos difíceis de conseguir. Firmar uma promessa que ainda não sabe se poderá cumprir. Criar um sem número de expectativas que nunca serão sequer alcançadas. Não se importar com as esperanças de alguém, que irão acabar frustradas. Mas, sempre de novo, prometer.
E assim seguir. Pensando sempre nas coisas que não devia ter feito. Se arrependendo de cada um de seus defeitos. Fingindo ter feito o que nunca fez. Seguir cantando como se fosse inocente, contando vantagens e se colocando sempre à frente de todos os que alguma vez experimentaram por sua vida passar. Mas, acima de tudo, seguir. E viver. E sonhar.
(texto para Oficina Avançada de Narrativas, a partir do filme com o mesmo nome do título do post)
15 fevereiro 2006
14 fevereiro 2006
Pipoca (parte III, e última)
Não demorou muito para que uma parte do grupo se separasse. A baianinha animadíssima, o pai, numa empolgação incrível, e uma das tias foram adiante. Não dava mesmo para ficarem todos juntos. Mas até que ainda estavam próximos.
A tia, dona da casa, o namorado dela e a prima estavam ainda por ali. Ele também.
Então aquilo que era a pipoca? Gente pulando ao som do axé, corpos suados em toda a volta. Gente que vez em quando girava o braço para o alto, segurando uma latinha de cerveja, refrigerante, Pitu Cola, ou mesmo água e derramando pelo menos metade no povo todo? Gente com lança perfume, ou loló, “viajando”, caindo pelas tabelas. Gente nem aí para ninguém ao lado, simplesmente pulando, dançando e se empurrando para conseguir espaço?
Não era aquilo o que ele esperava. Aos poucos, a excitação por estar saindo na pipoca foi se esvaindo. Os passos que antes estavam no ritmo da música iam aos poucos ficando mais lentos, mas tímidos. A cabeça antes alta, tentando captar tudo ao redor, ia ficando baixa. Lágrima rolavam devagar pelo rosto vermelho de calor. O vermelhão se destacava no rosto branco do gauchinho.
Foi aí que a tia se deu conta de como estava o sobrinho. Tanta gente em volta se divertindo e ele ali, quieto, triste até.
- Que é isso, Thomas? Que é que você tem? Machucou com alguma coisa?
- Ah, tia Ilse... eu não gostei dessa pipoca... – ele disse, chorando.
E eles voltaram. Ele chorando. A tia rindo da situação. E a prima chorando com ele, porque a mãe estava rindo dele. E essa foi a pipoca.
Agora não deu, quem sabe daqui a alguns anos, quando ele estiver mais velho, pronto para curtir e sabendo já como é a tal da pipoca.
(Conto para Oficina Avançada de Narrativas)
A tia, dona da casa, o namorado dela e a prima estavam ainda por ali. Ele também.
Então aquilo que era a pipoca? Gente pulando ao som do axé, corpos suados em toda a volta. Gente que vez em quando girava o braço para o alto, segurando uma latinha de cerveja, refrigerante, Pitu Cola, ou mesmo água e derramando pelo menos metade no povo todo? Gente com lança perfume, ou loló, “viajando”, caindo pelas tabelas. Gente nem aí para ninguém ao lado, simplesmente pulando, dançando e se empurrando para conseguir espaço?
Não era aquilo o que ele esperava. Aos poucos, a excitação por estar saindo na pipoca foi se esvaindo. Os passos que antes estavam no ritmo da música iam aos poucos ficando mais lentos, mas tímidos. A cabeça antes alta, tentando captar tudo ao redor, ia ficando baixa. Lágrima rolavam devagar pelo rosto vermelho de calor. O vermelhão se destacava no rosto branco do gauchinho.
Foi aí que a tia se deu conta de como estava o sobrinho. Tanta gente em volta se divertindo e ele ali, quieto, triste até.
- Que é isso, Thomas? Que é que você tem? Machucou com alguma coisa?
- Ah, tia Ilse... eu não gostei dessa pipoca... – ele disse, chorando.
E eles voltaram. Ele chorando. A tia rindo da situação. E a prima chorando com ele, porque a mãe estava rindo dele. E essa foi a pipoca.
Agora não deu, quem sabe daqui a alguns anos, quando ele estiver mais velho, pronto para curtir e sabendo já como é a tal da pipoca.
(Conto para Oficina Avançada de Narrativas)
13 fevereiro 2006
Pipoca (parte II)
A tal da baianinha divertida contagiou a todos com a idéia de sair atrás de um trio elétrico. Não tinham comprado abadá para bloco nenhum, mas, segundo ela, o mais legal mesmo era sair na “pipoca”.
A pipoca...
Ele só pensava na tal da pipoca. Como será que era isso? Será que eles jogam pipoca de cima do trio para quem não está no bloco? Por que será que a amiga da tia preferia sair na pipoca?
Sabe-se lá que tanto de coisa passava na cabeça de um garoto gaúcho de nove anos, que nunca tinha visto uma pipoca numa micareta. Mas que ele estava animado, isso ele estava. O importante era que pipoca, ali, era sinônimo de festa. Toda criança gosta de festa e ponto.
O Maceió Fest começou na quinta-feira, mas eles só foram mesmo no sábado. O ponto de encontro era a sorveteria no início do percurso. Já era um ponto bem conhecido de todos ali. A Bali era passagem obrigatória depois do almoço de domingo. Conheciam os donos e tudo. Era o lugar ideal para servir de base.
Tinha muita, muita gente na rua. Chegar ali foi complicado, mas conseguiram. Pegaram uma mesa na calçada, de onde se podia ver toda a movimentação na rua, ao mesmo tempo em que estavam “protegidos” do centro da muvuca.
Quem comandava a turma era a baianinha arretada, amiga da tia. Passou o primeiro trio. Gente, gente, gente. Barulho, música. O coração parecia que batia no ritmo do axé que saía do trio elétrico. Um movimento que tomava conta daquele corpo ainda pequeno, do tamanho da infância do garoto.
A cada carro que passava, sempre na mesma onda musical, a excitação tomava conta dele. Como será que é a pipoca? Deve ser muito bom, muito bom mesmo!
Era aquele! Ela chamou, todo mundo pronto. No primeiro espaço entre a multidão todos entraram, e foram.
Estavam na frente da corda, que limitava o espaço onde ficavam apenas os que estavam dentro do bloco. Ali eles não podiam entrar, não tinham o abadá. E os “cordeiros” não eram nem um pouco simpáticos. Iam empurrando quem quer que estivesse na frente à medida que o trio avançava um pouco mais. O bloco não podia parar.
(para Oficina Avançada de Narrativas - amanhã tem a parte final)
A pipoca...
Ele só pensava na tal da pipoca. Como será que era isso? Será que eles jogam pipoca de cima do trio para quem não está no bloco? Por que será que a amiga da tia preferia sair na pipoca?
Sabe-se lá que tanto de coisa passava na cabeça de um garoto gaúcho de nove anos, que nunca tinha visto uma pipoca numa micareta. Mas que ele estava animado, isso ele estava. O importante era que pipoca, ali, era sinônimo de festa. Toda criança gosta de festa e ponto.
O Maceió Fest começou na quinta-feira, mas eles só foram mesmo no sábado. O ponto de encontro era a sorveteria no início do percurso. Já era um ponto bem conhecido de todos ali. A Bali era passagem obrigatória depois do almoço de domingo. Conheciam os donos e tudo. Era o lugar ideal para servir de base.
Tinha muita, muita gente na rua. Chegar ali foi complicado, mas conseguiram. Pegaram uma mesa na calçada, de onde se podia ver toda a movimentação na rua, ao mesmo tempo em que estavam “protegidos” do centro da muvuca.
Quem comandava a turma era a baianinha arretada, amiga da tia. Passou o primeiro trio. Gente, gente, gente. Barulho, música. O coração parecia que batia no ritmo do axé que saía do trio elétrico. Um movimento que tomava conta daquele corpo ainda pequeno, do tamanho da infância do garoto.
A cada carro que passava, sempre na mesma onda musical, a excitação tomava conta dele. Como será que é a pipoca? Deve ser muito bom, muito bom mesmo!
Era aquele! Ela chamou, todo mundo pronto. No primeiro espaço entre a multidão todos entraram, e foram.
Estavam na frente da corda, que limitava o espaço onde ficavam apenas os que estavam dentro do bloco. Ali eles não podiam entrar, não tinham o abadá. E os “cordeiros” não eram nem um pouco simpáticos. Iam empurrando quem quer que estivesse na frente à medida que o trio avançava um pouco mais. O bloco não podia parar.
(para Oficina Avançada de Narrativas - amanhã tem a parte final)
09 fevereiro 2006
Pipoca (parte I)
Praia, sol, calor, areia. Precisa de mais alguma coisa para divertir um garoto de nove anos de idade? Ele tinha tudo isso, além da companhia do pai, duas tias, a avó e uma prima. Tinha com quem brincar na areia, construir castelinhos, pular ondas, fazer de um tudo.
Mas aquele verão era diferente. Diversos motivos faziam daquele mês de janeiro especial. Tudo bem que ele não tinha começado muito bem. Na virada do ano, à beira-mar, o champanhe resolveu, por conta própria, estourar antes da hora. O fósforo, pelo contrário, resolveu sumir bem na hora, o que levou ao atraso dos fogos que tinham sido preparados. Resultado, o “espetáculo dourado” atrasou um pouquinho. Pior que nem deu para fotografar o acontecido. Foram tão rápidos que nem deu tempo de a tia pegar a máquina fotográfica. Quando ela viu, já tinham acabado.
Até aí, tudo bem. O mais divertido ainda estava por vir.
Aquela era uma época em que “pipocavam” carnavais fora de época por toda a região Nordeste do Brasil, e Maceió não podia ficar de fora. Foi assim que, no ano anterior, surgiu o Maceió Fest, o carnaval fora de época oficial da capital alagoana. Aquela era a segunda edição do evento, que já movimentava milhares de foliões e muito, muito dinheiro. Ele ainda não fazia idéia do que era uma micareta. No máximo, tinha visto algo sobre na televisão.
Eram quatro dias de festa. Trios passando pela avenida, na frente daquele marzão lindo de Pajuçara e Ponta Verde. Diversas bandas e cantores solo desfilavam em cima dos trios elétricos. Quase todos vindos da Bahia. Muita gente pulando atrás ao longo e todo o percurso, ao som do axé. A música era uma febre recém saída do estado de ACM, que se espalhou rapidamente por todo o território nacional.
Da Bahia também viera uma amiga da tia. Uma baianinha quase tão elétrica quanto os trios que desfilavam. Animadíssima, lindíssima. Quase tudo nela era superlativo, principalmente a empolgação, que se espalhava para todos em volta. Não foi à toa que o pai dele se apaixonara por ela.
(conto para Oficina Avançada de Narrativas - quando voltar de Goiânia publico o resto dele)
Mas aquele verão era diferente. Diversos motivos faziam daquele mês de janeiro especial. Tudo bem que ele não tinha começado muito bem. Na virada do ano, à beira-mar, o champanhe resolveu, por conta própria, estourar antes da hora. O fósforo, pelo contrário, resolveu sumir bem na hora, o que levou ao atraso dos fogos que tinham sido preparados. Resultado, o “espetáculo dourado” atrasou um pouquinho. Pior que nem deu para fotografar o acontecido. Foram tão rápidos que nem deu tempo de a tia pegar a máquina fotográfica. Quando ela viu, já tinham acabado.
Até aí, tudo bem. O mais divertido ainda estava por vir.
Aquela era uma época em que “pipocavam” carnavais fora de época por toda a região Nordeste do Brasil, e Maceió não podia ficar de fora. Foi assim que, no ano anterior, surgiu o Maceió Fest, o carnaval fora de época oficial da capital alagoana. Aquela era a segunda edição do evento, que já movimentava milhares de foliões e muito, muito dinheiro. Ele ainda não fazia idéia do que era uma micareta. No máximo, tinha visto algo sobre na televisão.
Eram quatro dias de festa. Trios passando pela avenida, na frente daquele marzão lindo de Pajuçara e Ponta Verde. Diversas bandas e cantores solo desfilavam em cima dos trios elétricos. Quase todos vindos da Bahia. Muita gente pulando atrás ao longo e todo o percurso, ao som do axé. A música era uma febre recém saída do estado de ACM, que se espalhou rapidamente por todo o território nacional.
Da Bahia também viera uma amiga da tia. Uma baianinha quase tão elétrica quanto os trios que desfilavam. Animadíssima, lindíssima. Quase tudo nela era superlativo, principalmente a empolgação, que se espalhava para todos em volta. Não foi à toa que o pai dele se apaixonara por ela.
(conto para Oficina Avançada de Narrativas - quando voltar de Goiânia publico o resto dele)
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