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28 maio 2010

A Minustah

O contato também é intenso com os soldados. Vale lembrar que a Minustah, assim como missões anteriores da ONU, foi para o Haiti não por causa dos indicadores sociais, mas por causa de convulsões populares, guerra civil, que desestabilizaram o sistema político e as instituições ao longo de toda a história do país.

Ao menos aparentemente, as tropas têm sido bem recebidas. Os militares brasileiros que chegaram no Haiti em maio contam que alguns até agora não precisaram dar sequer um tiro. “Isso é o que nos conforta e motiva a continuar trabalhando duro”, ressalta o comandante brasileiro, coronel Fioravante.

Ações conhecidas como Aciso – Ações Civico Sociais – também ajudam. A cada dois dias, em média, ocorre distribuição de água e alimentos, atividades de recreação para as crianças e, algumas vezes, também orientações de higiene bucal.

“A gente já percebeu desde o início da missão que depois dessas atividades de Aciso a gente passa na rua e a população brinca, pede mais alguma atividade, distribuição de alimento, água, brincadeira, e isso é bom pra gente”, explica o tenente Johnestown Haullinson, responsável pela organização do Aciso que visitamos no segundo dia da viagem.

Outras atividades também são desenvolvidas pela divisão de assuntos civis, responsável pela ligação entre as autoridades do governo, os organismos internacionais, o braço armado da missão e a população haitiana. “Nós estamos formando líderes comunitários para que eles possam atuar em situações de emergência aqui dentro do país deles, como enchentes", conta o tenente-coronel Eugênio Pecelli.

O general Augusto Heleno, primeiro force commander da Minustah, conta que no início a missão tinha um caráter mais rígido, de imposição de paz, "devido à situação de defesa encarniçada das gangues dentro das favelas principais, tanto de Bel Air, quanto de Citè Militaire, quanto de Citè Soleil".

"Hoje o perfil é muito mais humanitário, isso melhorou muito a nossa chegada perto da população", complementa o general.

“No início, [o relacionamento] não foi muito bom; agora é diferente, porque a Minustah traz a paz aqui; no início não tinha paz. Quando a Minustah chegou, todo dia tinha tiro, era normal o conflito entre os bandidos”, resume Jean Baptiste Jean Denis, intérprete da ONU, que trabalha no batalhão brasileiro.

Chama a atenção a quantidade de pessoas que, como Jean, aprenderam ou estão aprendendo aos poucos o português. Muitos com os mesmos objetivos: conseguir um emprego e vir para o Brasil estudar.

Só no recém criado Centro de Estudos Brasileiros – inaugurado em fevereiro deste ano -, 70 haitianos já fizeram o primeiro nível do curso de português. São alunos geralmente de baixa renda, mas que sabem falar além do francês e do creole, língua oficial, algum outro idioma, como o espanhol.

“Hoje você tem um país altamente internacionalizado, com gente de todo o mundo, e quanto mais idiomas você fala, mais possibilidades de contato, de interação e provavelmente de emprego”, explica o coordenador do centro, José Renato Baptista. “Nós temos também demandas de estudantes que fazem graduação aqui ou desejam fazer uma graduação no Brasil”, completa.

Mas a Minustah está longe de ser uma unanimidade. A resistência de setores da própria Igreja Católica, de organizações da sociedade civil e de partidos como o Kombat é uma coisa que o próprio embaixador brasileiro, Igor Kipman, admite.

Os motivos para a resistência são vários. Organizações sociais consideram as tropas como de ocupação, e não de paz, o que viola a soberania do Haiti. Em um comunicado recente, 20 entidades disseram que seria melhor que o dinheiro da Minustah fosse aplicado em projetos de reconstrução do país. Elas dizem, também, que as tropas massacram os movimentos sociais.

Só que ainda não existe data para a saída das tropas internacionais que estão no Haiti. De acordo com o segundo homem no comando da Minustah, o brasileiro Luiz Carlos da Costa, a previsão é de que o perfil atual da missão seja mantido até 2011 pelo menos. "É prematuro no momento mudar o nosso perfil", diz.

26 maio 2010

23 de setembro de 2008: acredite, você está no Caribe

Início da tarde . Da janela do avião, casas sem teto e o mar sem azul de tanto engolir rios de lama e esgoto. O encontro das águas no país mais miserável do novo continente leva a uma completa revisão de conceitos. Não parece o Caribe. O Haiti choca antes mesmo da aterrisagem.

“Eu costumo dizer que a gente acha que tem um determinado problema no Brasil, e depois que passa por aqui, vê as áreas degradadas, uma população num estado de miséria na nossa área de operações, com certeza esses valores são reavaliados e aqueles problemas que a gente achava que tinha no Brasil não são problemas”, reflete o comandante do batalhão brasileiro na Minustah, coronel Pedro Antonio Fioravante.

O primeiro item da programação da recém chegada comitiva do Ministério da Defesa é uma visita a Citè Soleil. O bairro, até o ano passado considerado o mais violento do mundo, foi o último a ser "pacificado" pelas forças da Minustah. Ao contrário do que acontece no Brasil, os pobres ficam à beira-mar, a região menos valorizada, por ser onde alaga quando chove muito. É assim que várias partes estavam quando passamos, uns 20 dias depois do último furacão.

“O que você tem ali é uma população que precisa de desenvolvimento, precisa de emprego, das coisas normais que todo mundo quer, que é o emprego, a escola, a moradia, alimentação, saúde, isso é o que todo mundo quer, em qualquer lugar do mundo, e que ali não tem condições, com um índice de desemprego altíssimo”, diz o comandante das forças da missão de paz, general Carlos Alberto dos Santos Cruz.

Hoje já é possível entrar em Soleil sem capacete ou colete a prova de balas, coisa impensável um ano e meio atrás, quando os soldados eram recebidos a bala pelas gangues armadas. Mas ainda não podemos dispensar a escolta armada com fuzis, nem nos afastar muito, pois estamos perto do final da tarde e ficar para trás significa não ter como voltar depois, pois não há transporte nem energia elétrica. À noite, se instala o breu.

O local é a tradução da falta de condições de higiene no país em que apenas 30% da população têm acesso a saneamento básico e cerca de 54%, a água tratada, segundo a ONU. As pessoas se lavam e comem com água que se mistura facilmente ao esgoto que sai das casas. O relacionamento com o lixo é tão indigno quanto, pois só agora um serviço mínimo de coleta está voltando a funcionar, pelo que os soldados contam.

Considerado o país mais pobre e menos desenvolvido das Américas pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), o Haiti tem um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,529 numa escala que vai de 0 a 1 - o do Brasil, por exemplo, é 0,8. A população é estimada em 9,3 milhões de pessoas, 65% vivendo abaixo da linha de pobreza e 53,9%, com menos de US$ 1 por dia.

O Produto Interno Bruto per capita é de US$ 1.635 – contra US$ 8.195 no Brasil, por exemplo. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a expectativa de vida ao nascer é de 59 anos e a taxa de mortalidade em crianças com menos de cinco anos chega aos 105 por mil nascidos vivos, ou seja, mais de 10%.

“Esse é um país que precisa de tudo”, resume a embaixatriz brasileira em Porto Príncipe, capital haitiana, Roseana Kipman. E não bastassem os indicadores socioeconômicos, o país ainda está na rota de diversos furacões – em torno de 20 por ano, entre os meses de julho e outubro.

“E esse povo que dorme em casas que não têm janela, mal têm uma porta, quando a água entra e leva o barraco... não é uma cidade, isso não é uma cidade, e não se pode falar em favelas, tem algumas casas no meio de coisa nenhuma”, lamenta a embaixatriz.

Toda essa carência pode ser sentida pelas ruas de Citè Soleil. Diferentes em tudo, na cor da pele especialmente, nós, estrangeiros, chamamos a atenção especialmente das crianças. Elas não hesitam em vir para junto de nós. “Hey you”, dizem para chamar a atenção. Nos cercam, querem saber quem somos, de onde somos, nossos nomes, se temos filhos, os nomes deles. E não falta o pedido de comida, dinheiro, socorro.

Revivendo experiências

Há alguns dias lembrei uma viagem feita ao Haiti. Uma grande experiência. Não em relação ao tempo que fiquei por lá, mas pelas marcas que deixou em mim. Junto, infelizmente, uma frustração. Uma daquelas que vira e mexe acontecem no trabalho. Afinal, nem sempre o que produzimos vai ao ar, ou é publicado. Por isso resolvi usar esse blog há tanto adormecido para algo realmente útil.

Na época da viagem, final de setembro de 2008, o Haiti havia acabado de passar por quatro furacões. O Conselho de Segurança da ONU estava para aprovar a prorrogação da missão de paz na época ainda chefiada pelo Brasil, a Minustah. E o brasileiro Luiz Carlos da Costa, funcionário de carreira da ONU, segundo na chefia civil da missão, ainda era vivo, e ainda falava com esperança sobre um futuro para o Haiti, que poderia - ainda pode - ser construído com o auxílio de outros países.

Fui numa comitiva do Ministério da Defesa, representando a Agência Brasil, junto com um fotógrafo. Também estavam na comissão um repórter e um cinegrafista da TV Brasil, uma repórter da Agência Lusa e uma repórter e um cinegrafista da Rede Globo.

Difícil esquecer a primeira passagem por Citè Soleil. Ou a ida a um Aciso em Porto Príncipe, com a distribuição não só de água ou alimentos, mas também de kits para higiene bucal e principalmente, carinho para crianças tão carentes de tudo, absolutamente tudo.

O que posto agora, deveria ter ido ao ar no máximo até depois das eleições municipais de 2008 na Agência Brasil. Contratempos impediram a publicação dentro do prazo. Depois não fazia mais sentido, jornalisticamente falando. Por isso vou publicando aqui os textos que iriam ao ar. Infelizmente não poderei colocar também os áudios coletados e as fotografias feitas pelo Roosewelt, grande fotógrafo.

Quem tiver paciência para a leitura, aproveite. Mas lembre: nem todos que tinham cargos continuam por lá. A maioria, não, afinal, o contingente militar é trocado a cada seis meses.

18 junho 2009

O Diploma

Não sou de conceder louros a qualquer pessoa e/ou opinião. Tampouco costumo exaltar expressões de senadores, dos quais nunca sabemos ao certo a motivação para seus pronunciamentos às vezes tão tocantes.

Mas vale a pena ressaltar o que disse, hoje, em Plenário, o senador João Pedro (PT-AM). Não por ele, mas pelas idéias, mesmo, a respeito da decisão de ontem do Supremo Tribunal Federal (STF), declarando inconstitucional a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista.

São só algumas aspas dele. Em seguida, o link para um post no blog do Chico Sant’Anna, com o qual concordo quase plenamente.

Em tempo: sou a favor do diploma? Sim. Mas ele não precisa ser de graduação. Nada contra um economista, advogado, médico ou engenheiro trabalhando como jornalistas. Mas acho fundamental que haja formação. Aceito a ideia defendida por um colega: tenhamos não graduação, mas especialização em jornalismo, na qual possamos debater, em menor tempo, ética, técnica, teoria.

“Principalmente nos últimos anos, a categoria dos trabalhadores e das trabalhadoras que estão nas redações, nas rádios e na televisão, a categoria dos jornalistas se organiza, em nível nacional, pela federação, nos Estados, com sindicatos. E o que vejo são saltos de qualidade na profissão, no compromisso, na responsabilidade.” (Ok, diploma não é garantia total, mas que ajuda, ajuda...)

“Isso, para mim, é um retrocesso. O Estado pode regular muita coisa, menos nesse setor ("imprensa livre"? será?), nessa categoria, de tamanha importância, de tamanha relevância, não só para o Brasil, para a sociedade brasileira, mas também para o mundo.”

“...a notícia tem de ter um padrão técnico, um padrão ético, e não se pode, de forma alguma, misturar ou diminuir esse padrão da verdade. Só os profissionais podem ser cobrados. Só podemos cobrar isso de profissionais que estudam, que passam pelos laboratórios, que passam por uma formação acadêmica para exercer uma profissão. São pessoas que têm dez, vinte, trinta anos de redação. É toda uma vida! Estuda-se para isso. E, agora, a decisão permite que qualquer cidadão possa participar da redação, da edição.”

“Não estou dizendo que não podemos fazê-lo, escrever para um jornal. Mas a feitura de um jornal, de uma revista, de um periódico precisa passar não pelas mãos, mas pela consciência de um profissional que esteve dentro de uma escola, de uma universidade.” (imprensa livre é um aspecto da liberdade de expressão, acredito; mas discordo que liberdade de expressão se traduza somente na liberdade de imprensa, vista como "qualquer um pode escrever matéria em jornal", até porque, os espaços de opinião estão abertos para isso, centenas de entrevistados são ouvidos diariamente para isso"

“Espero que não só esses profissionais, mas o Brasil, a sociedade possa conviver com essa decisão, sem que o padrão do trabalho e da informação caia, sem que o conteúdo e a verdade percam sua legitimidade.”

http://chicosantannaeainfocom.blogspot.com/2009/06/o-jornalismo-pos-diploma.html